Quando a colheita de um simples cacho de banana se transforma numa fuga desesperada entre insetos e um formigueiro.

Quem vive na lida da roça sabe que o mato não avisa quando vai dar o bote. A gente afia a foice, entra na trilha e acha que sabe como o dia vai terminar. Mas a natureza tem os seus próprios limites e um senso de humor um tanto sádico na hora de cobrar pedágio de quem entra nela.

Tudo começou com a vontade de colher um cacho de banana branca. Era um pé gigante e robusto, mas que dava um cacho desproporcionalmente pequeno. O esforço compensava porque a fruta era muito doce. Meu pai, com os seus mais de 65 anos e a firmeza de quem passou a vida cortando mato, assumiu a frente com a foice.

Derrubar uma bananeira exige um corte certeiro para que o pé dobre e o cacho desça sem amassar no chão. Meu pai deu o golpe no tronco úmido. A bananeira tombou pesada, mas, na queda, esbarrou com força num arbusto vizinho.

Foi o suficiente. Do arbusto, despencou um ninho de mamangavas. A mamangava é um bicho escuro e encorpado. Elas têm um voo errático, pesado e meio lento, mas se uma pegar, a ferroada dói demais. E elas vieram direto para cima de nós. O instinto não deixou espaço para pensar muito: era largar a dignidade, pular e correr.

O problema é que, naquelas encostas, o "carrero" — a trilha batida por onde a gente andava — tinha uns 30 centímetros de largura. Pisar fora dele podia significar um desnível de mais de um metro para cima ou para baixo. Demos um pulo às cegas para sair do alcance do enxame. Mas, como desgraça pouca é bobagem, ao aterrissar, meu pai não encontrou o nível do chão. Caiu exatamente de costas num formigueiro gigante. Não era um formigueiro de terra, mas um monte de folhas recortadas e pequenos gravetos com mais de um metro de altura. Era obra das formigas quenquém, que cortam nacos grandes de folhas e amontoam todo esse "cisco" para fazer o ninho. Meu pai sempre alertava para não pisar naquilo, porque o calor do cisco em fermentação costuma atrair cobras. Ironicamente, foi ele quem caiu em cheio lá dentro. O monte fofo cedeu e as quenquéns, furiosas, começaram a subir rápido pelas calças e camisas.

Largamos tudo. A foice ficou fincada na bananeira, a banana doce perdeu o encanto, e saímos correndo pela trilha num campeonato de tapas na própria roupa para tirar as formigas. Era a agilidade do desespero provando que um homem de 65 anos e seu filho ainda podiam bater o recorde dos cem metros rasos mato afora.

Só paramos mais adiante, quando não se ouvia mais nenhum zumbido. Ofegantes e limpando as últimas formigas, meu pai levou a mão ao rosto. A expressão dele mudou.

— Perdi os óculos.

Sem os óculos, ele não enxergava quase nada. A pior parte não era só a vista ruim, mas o tamanho do castigo: ter de fazer o caminho de volta e procurar um pedaço de acrílico transparente bem no meio do formigueiro que tínhamos acabado de esmagar.

O profeta Amós (5:19) descreve bem esse tipo de dia: "É como se um homem fugisse de um leão, e um urso o encontrasse; ou como se, entrando em casa, encostasse a mão à parede, e uma cobra o mordesse". Fugimos das mamangavas para cair nas formigas, e fugimos das formigas para descobrir que precisávamos voltar para elas.

A volta foi tensa. Passos lentos, de olho no chão e ouvido atento. Achamos a foice e a bananeira tombada. E lá estavam os óculos, caídos bem no meio das folhas revolvidas do formigueiro. Para tirar de lá, era preciso muito cuidado para não atiçar os insetos de novo — e com aquele aviso das cobras martelando na cabeça a cada movimento.

Aquele dia nos rendeu boas risadas anos depois, mas deixou o seu aviso. Na vida, às vezes somos forçados a voltar aos mesmos lugares que nos machucaram para recuperar algo importante que deixamos cair. O mato não perdoa desatenção, mas ele também ensina que não basta só fugir do perigo; às vezes, você tem que voltar e meter a mão no vespeiro (ou no formigueiro) quando o que ficou lá no meio é valioso demais para ficar para trás.

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