Passada a poeira das urnas, a sensação que fica não é a de um país dividido ao meio de forma cega, mas sim a de um eleitorado muito mais calculista do que os comentaristas políticos gostam de admitir. Refletindo sobre o resultado e conversando com as pessoas ao meu redor, tirei três grandes lições desse processo eleitoral.

1. A sabedoria de não dar poder demais para um lado só

Meu pai sempre repete uma frase que resumiu perfeitamente o espírito dessa eleição: "Não podemos dar poder demais para um lado só". E foi exatamente esse o recado das urnas.

A vitória de Lula cumpriu o papel fundamental de equilibrar a balança e estancar o risco de um desmonte da máquina democrática e das instituições. Ao mesmo tempo, o eleitor não entregou um cheque em branco. A oposição gigantesca que se formou no Congresso e nos estados funciona como uma trava de segurança. Ela vai servir para limitar os excessos e conter aquelas vertentes mais radicais e desconectadas da realidade dentro da própria militância de esquerda. No fim, a democracia respira melhor quando ninguém tem força absoluta para governar sozinho.

2. O voto na "terceira via" não era ódio ao lulismo, era fuga do bolsonarismo

Muito se falou sobre os votos que foram para nomes alternativos no primeiro turno — como Cury, Renan e outros que tentaram furar a polarização. Olhando de perto, ficou claro que esse movimento não nasceu necessariamente de uma revolta visceral contra o lulismo.

Era, acima de tudo, a busca desesperada de uma parcela do eleitorado por uma mudança que não exigisse abraçar o bolsonarismo. Muita gente queria renovação, queria virar a página, mas se recusava a assinar embaixo do radicalismo para conseguir isso.

3. O voto de autodefesa contra o populismo de clã

Por fim, o segundo turno revelou um fenômeno silencioso: o comparecimento de quem tem verdadeiro desprezo pela política. Muita gente que já estava cansada do debate público saiu de casa no domingo com uma única missão: garantir que o bolsonarismo não voltasse.

E aqui faço questão de separar as coisas. Quando falo em rejeição ao bolsonarismo, não estou falando da corrente liberal-conservadora, que tem pautas legítimas e faz parte do jogo democrático da direita brasileira. Falo especificamente do "clã Bolsonaro" e do seu método.

O que o eleitorado moderado rejeitou foi o uso daquela velha estética de "deputado desbocado" — barulhento e populista — como mero trampolim para conquistar e manter o poder. Faltou projeto de país, faltou estratégia real de gestão e sobrou bravata sem qualquer entrega de benefícios eficientes para a população.


Essa eleição mostrou que, por trás de toda a gritaria das redes sociais, existe um Brasil que vota por sobrevivência e equilíbrio. Um país que sabe usar um lado para frear o outro e que, aos poucos, começa a diferenciar ideologia política de puro barulho populista.

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