Pitcairn: quando a missão se torna memória
A história de uma ilha, dois navios e o perigo de possuir a Palavra sem permitir que ela governe a vida
Pitcairn tornou-se símbolo da missão adventista no Pacífico. Antes disso, porém, foi esconderijo de amotinados, cenário de violência e lugar de reconstrução ao redor de uma Bíblia. Sua história recorda que uma comunidade pode conservar uma forte identidade religiosa e, ainda assim, tolerar pecados silenciosos.
O Livro encontrado na Casa do Senhor
Em 2 Reis 22, durante a reforma do templo, o sacerdote Hilquias fez uma declaração estranha: "Achei o Livro da Lei na Casa do Senhor." O Livro de Deus foi encontrado dentro da Casa de Deus. Estava preservado, mas havia deixado de orientar o povo. Essa imagem nos acompanhará ao longo de toda a história.
Um navio chamado Pitcairn
Em 1890, um pequeno navio deixou a costa de São Francisco, nos Estados Unidos, em direção ao imenso oceano Pacífico. Não se tratava de um navio de guerra. Não levava exploradores em busca de riquezas. Também não transportava fugitivos. Levava famílias missionárias, publicações, suprimentos e a esperança de alcançar povos que viviam em algumas das regiões mais isoladas do mundo.
Seu nome era Pitcairn.
A embarcação havia sido construída principalmente com ofertas da Escola Sabatina. Crianças, jovens e adultos entregaram pequenas contribuições para uma missão que a maioria deles jamais visitaria. Talvez nunca atravessassem o Pacífico. Talvez nunca conhecessem aqueles ilhéus. Mesmo assim, por meio de suas ofertas, embarcaram naquela missão.
Em 20 de outubro de 1890, o Pitcairn partiu de São Francisco. A bordo estavam missionários como Edward Gates e Albert Read, acompanhados de suas famílias. Também viajavam John e Hannah Tay. Depois de uma longa travessia, o navio chegou à pequena ilha da qual recebera o nome.
Os habitantes já conheciam os ensinamentos adventistas, especialmente pelo trabalho anterior de John Tay. Agora chegaram ministros que poderiam organizar a comunidade e realizar batismos. Naquela primeira viagem, 82 habitantes foram batizados e a igreja adventista foi formalmente estabelecida. Depois disso, o navio prosseguiu pelo Pacífico, levando missionários e publicações a outros povos.
Durante muito tempo, praticamente toda a população de Pitcairn identificou-se com o adventismo. O sábado entrou no ritmo da vida coletiva. A igreja tornou-se um centro da comunidade. O nome Pitcairn passou a ser pronunciado em igrejas e Escolas Sabatinas ao redor do mundo.
Era uma história inspiradora: nenhuma distância era grande demais, e nenhum povo era pequeno demais para ser alcançado pelo evangelho.
Mas por que aquele navio recebeu o nome de Pitcairn? O que havia naquela ilha para despertar tamanho interesse? Para compreender, precisamos voltar no tempo e procurar no mapa um ponto quase perdido no Pacífico.
Uma ilha remota
Pitcairn é uma pequena ilha vulcânica no Pacífico Sul, cerca de 2.170 quilômetros a sudeste do Taiti. É a única ilha habitada de um arquipélago que inclui Henderson, Ducie e Oeno. Politicamente, é um Território Ultramarino Britânico. Possui administração local, enquanto sua sede administrativa externa fica em Auckland, na Nova Zelândia, a mais de cinco mil quilômetros de distância.
A ilha tem pouco mais de três quilômetros de comprimento. Não possui aeroporto. A etapa final da viagem precisa ser feita por mar e, dependendo das condições do oceano, nem sempre é possível desembarcar.
Vista de longe, Pitcairn parece um pequeno ponto verde cercado pela imensidão azul. Seu isolamento protegeu os primeiros habitantes dos olhos do mundo. Mas também permitiu que a comunidade desenvolvesse seus próprios costumes e seus próprios silêncios.
Muito antes de um navio missionário chamado Pitcairn atravessar o oceano levando esperança, outro navio chegou àquela ilha transportando homens que desejavam desaparecer. Seu nome era Bounty.
O Bounty e a natureza humana
O Bounty saíra da Inglaterra sob o comando do tenente William Bligh. A missão era chegar ao Taiti, recolher mudas de fruta-pão e levá-las às colônias britânicas nas Índias Ocidentais. Depois de uma longa permanência no Taiti, parte da tripulação já não desejava voltar à dura disciplina naval.
Em 28 de abril de 1789, Fletcher Christian e seus companheiros tomaram o navio. Bligh e outros 18 homens que permaneceram leais foram colocados num pequeno barco aberto, com alguns instrumentos, água e provisões limitadas. É importante não confundir as embarcações: o pequeno bote não levou os amotinados a Pitcairn. Nele estavam Bligh e os homens expulsos do Bounty. Contra as expectativas, Bligh conduziu o bote por cerca de 6.700 quilômetros até Kupang, em Timor Ocidental, território que hoje pertence à Indonésia.
O episódio costuma ser apresentado como aventura romântica: marinheiros cansados da tirania, encantados pelo paraíso do Taiti e decididos a viver em liberdade. A realidade foi muito menos romântica.
Os amotinados permaneceram com o Bounty. Primeiro tentaram estabelecer uma colônia em Tubuai, mas o projeto fracassou em meio à resistência e aos conflitos. Voltaram então ao Taiti. Dezesseis homens ficaram ali, inclusive alguns que não haviam apoiado voluntariamente o motim e que mais tarde responderiam perante as autoridades. Fletcher Christian e outros oito amotinados partiram novamente no próprio Bounty. Precisavam desaparecer, pois sabiam que, se fossem capturados, seriam julgados por um crime gravíssimo.
Eles, porém, não formariam uma comunidade apenas com nove marinheiros. Ao deixarem o Taiti, levaram homens e mulheres polinésios, além de uma criança. Nem todos escolheram livremente aquele destino, e há registros de pessoas levadas contra a própria vontade ou sem informação clara sobre a viagem. Não se tratava simplesmente de companheiros que, em igualdade, decidiram construir uma sociedade. Havia pessoas privadas da liberdade de escolher onde e com quem viveriam.
Christian conhecia a existência de Pitcairn pelas cartas e pelos livros de navegação que estavam no Bounty. A ilha havia sido avistada em 3 de julho de 1767 pelo HMS Swallow, comandado pelo capitão Philip Carteret. O primeiro a percebê-la no horizonte fora o jovem guarda-marinha Robert Pitcairn, de quem ela recebeu o nome. Carteret, porém, não desembarcou e registrou incorretamente a longitude. A ilha existia, tinha nome, mas aparecia no lugar errado do mapa.
Era exatamente o tipo de lugar que homens procurados pela justiça desejavam encontrar. Eles não chegaram ali por puro acaso: Christian decidiu procurar aquela ilha remota como esconderijo. Mas a decisão não eliminava a incerteza. Durante semanas, o Bounty navegou pelo Pacífico tentando localizar um ponto que outros navegadores não haviam conseguido reencontrar.
Finalmente, em 15 de janeiro de 1790, uma elevação surgiu no horizonte. Era Pitcairn, encontrada a centenas de quilômetros da posição indicada nas cartas. O erro que quase a fizera desaparecer dos mapas tornava-a um esconderijo quase perfeito.
A ilha estava desabitada, mas não era uma terra sem passado. Vestígios arqueológicos mostram que povos polinésios já haviam vivido ali por séculos. Havia ferramentas de pedra, áreas de ocupação e sinais da exploração de basalto usado na produção de utensílios. Essa população havia desaparecido antes da chegada europeia. Os amotinados procuravam desaparecer e chegaram a uma ilha cujos antigos moradores também já não estavam ali.
Os recém-chegados desembarcaram tudo o que podia ser aproveitado e, poucos dias depois, o Bounty foi incendiado. Eles conseguiram esconder o navio, esconder a localização e apagar parte dos sinais de sua chegada. Mas não existe ilha suficientemente distante para que o ser humano consiga fugir de si mesmo.
Queimar o navio dificultava a descoberta dos amotinados. Também impedia que os polinésios retornassem à sua terra. Todos ficaram presos à ilha, inclusive os que não haviam escolhido viver ali.
Pitcairn oferecia água, solo fértil e alimento. Parecia um paraíso. Mas o pecado também desembarcara. Os europeus reservaram terras e autoridade para si. Os homens polinésios foram colocados numa condição subordinada e obrigados a trabalhar. As mulheres foram tratadas muitas vezes como se pudessem ser distribuídas segundo os interesses dos homens.
Os que diziam desejar liberdade negaram liberdade aos outros. Os que rejeitaram a autoridade de Bligh estabeleceram seu próprio domínio. Os que reclamavam da dureza com que eram tratados passaram a tratar outros como inferiores.
O relato de Marcos 7:20–23 ensina que é de dentro, do coração humano, que procedem os males. Os amotinados mudaram de autoridade, de país e de continente. Encontraram uma ilha escondida dos mapas e dos olhos da justiça. Mas não conseguiram deixar no mar aquilo que carregavam no coração.
Podemos mudar de cidade, de emprego e até de igreja. Podemos tentar apagar o passado e recomeçar. Mas, se o coração não for transformado, levaremos conosco o orgulho, a cobiça, a violência e as formas de dominação que fingimos ter deixado para trás.
Pitcairn oferecia um novo território, mas não oferecia um novo coração.
Nos primeiros tempos, os habitantes trabalharam intensamente. Construíram moradias, cultivaram a terra e organizaram aquilo de que precisavam para sobreviver. Por algum tempo, a abundância natural da ilha pareceu confirmar a ideia de que haviam encontrado um refúgio. Mas a organização social estava fundada sobre uma desigualdade profunda.
Os europeus reservaram para si a maior parte das terras e da autoridade, enquanto os homens polinésios foram tratados como subordinados. As disputas por terra, trabalho e mulheres acumularam ressentimentos. Em setembro de 1793, quatro dos homens polinésios se revoltaram e mataram cinco dos nove amotinados, entre eles Fletcher Christian. Seguiram-se represálias e novos conflitos. No ano seguinte, todos os seis homens polinésios e cinco dos nove amotinados já estavam mortos. Esses acontecimentos não são um acréscimo romântico à narrativa; fazem parte do registro histórico da colônia.
Restaram quatro amotinados: John Adams, Edward Young, William McCoy e Matthew Quintal. A violência diminuiu por algum tempo, mas a comunidade ainda não havia encontrado verdadeira paz. McCoy construiu um aparelho de destilação e passou a produzir uma bebida alcoólica a partir de uma planta da ilha. O consumo excessivo, especialmente por McCoy e Quintal, agravou a instabilidade, as ameaças e os conflitos. Não é historicamente seguro afirmar que todos os habitantes se tornaram alcoólatras; o que as fontes destacam é o comportamento destrutivo de alguns deles.
McCoy morreu em 1798, em meio à crise relacionada ao alcoolismo. No ano seguinte, depois de Quintal ameaçar novamente a segurança dos demais, Adams e Young o mataram. Em 1800, Edward Young morreu em consequência de uma doença, deixando John Adams como o único amotinado ainda vivo na ilha.
Isso não significa que todos os habitantes posteriores descendiam biologicamente apenas de Adams. Os outros amotinados já haviam deixado filhos. A população de Pitcairn descendeu de várias dessas famílias e, de maneira indispensável, das mulheres polinésias que preservaram conhecimentos, cultivaram alimentos, cuidaram das crianças e sustentaram a sobrevivência da comunidade. Adams foi o último sobrevivente entre os amotinados originais, não o único ancestral da geração seguinte.
Em aproximadamente dez anos, dos quinze homens que haviam desembarcado em Pitcairn - nove europeus e seis polinésios - somente John Adams permanecia vivo. Não faltavam água, alimento ou terra. O que faltava não estava no solo. Faltava no coração.
Os amotinados queimaram o navio para apagar o caminho de volta. Mas, antes que o fogo consumisse o Bounty, um objeto foi levado para terra. Entre os bens retirados do navio havia uma Bíblia.
Uma Bíblia entre os destroços
Edward Young sabia ler melhor que muitos dos sobreviventes. Nos últimos anos de sua vida, usando a Bíblia retirada do Bounty, ajudou John Adams a avançar na leitura e no conhecimento das Escrituras. Quando Young morreu, Adams assumiu uma responsabilidade singular pelas mulheres e crianças que permaneciam na ilha.
Adams não poderia desfazer o que havia acontecido. A Palavra não fez desaparecer as consequências do passado. Mas ofereceu uma orientação diferente para o futuro. A Bíblia passou a ser utilizada para ensinar as crianças a ler, transmitir os princípios cristãos e organizar a vida comunitária.
Em 1808, quando o navio americano Topaz encontrou Pitcairn, seus tripulantes esperavam talvez encontrar criminosos escondidos. Encontraram uma comunidade que falava inglês, ensinava suas crianças e havia começado a ordenar a vida ao redor da fé cristã.
Esta é uma das grandes verdades do evangelho: a graça não declara que o passado nunca existiu. Ela impede que o passado tenha a última palavra.
Não basta que a Bíblia faça parte de nossa história; ela precisa orientar nossa vida.
A Bíblia do Bounty não foi um amuleto. Enquanto foi aberta, ensinada e aplicada, tornou-se instrumento de reconstrução. O poder não estava na antiguidade do objeto, mas na verdade que ele anunciava e na disposição de ouvi-la.
John Tay e a chegada da mensagem adventista
Décadas mais tarde, publicações adventistas chegaram à ilha. Os habitantes começaram a ter contato com ensinamentos bíblicos defendidos pelo movimento adventista. Em 1886, John I. Tay, carpinteiro e adventista norte-americano, conseguiu visitar Pitcairn.
Tay permaneceu algumas semanas estudando a Bíblia com os ilhéus. Apresentou-lhes, entre outros ensinos, o sábado do quarto mandamento. Encontrou grande receptividade. Como não era ministro ordenado, não realizou os batismos. Voltou levando o pedido para que a igreja enviasse uma missão oficialmente organizada.
O apelo mobilizou a igreja. As ofertas da Escola Sabatina financiaram o navio missionário. Agora compreendemos por que a embarcação se chamava Pitcairn. Seu nome não era apenas uma referência geográfica. Era o nome de uma comunidade que havia solicitado ajuda espiritual e que se tornaria uma porta de entrada para a missão no Pacífico.
Voltemos então à imagem inicial: em 1890, o navio Pitcairn atravessou o oceano; em sua primeira viagem, 82 habitantes foram batizados. Depois, prosseguiu para outras ilhas.
O primeiro navio levara homens que fugiam da justiça. O segundo levava homens e mulheres que anunciavam a justiça de Cristo. O Bounty terminou queimado na baía. O Pitcairn atravessou o mar levando esperança. Deus pode transformar o lugar que recebeu fugitivos num ponto de partida para missionários.
A comunidade recebeu o evangelho e, em certo sentido, tornou-se parte da missão. Mas nenhuma geração pode viver indefinidamente da experiência espiritual de seus antepassados.
Quando a identidade não impede o pecado
Durante décadas, Pitcairn foi conhecida como uma comunidade adventista. O sábado fazia parte da cultura; havia igreja, Bíblia, memória missionária e identidade denominacional. Muitos habitantes descendiam dos primeiros conversos. Mas ser descendente de convertidos não é o mesmo que ser convertido. Herdar uma igreja não é o mesmo que renovar a aliança que lhe deu origem.
A população chegou a cerca de 233 habitantes em 1937. Depois diminuiu, principalmente pela emigração em busca de educação, trabalho e outros serviços. Atualmente, a população gira em torno de cinquenta moradores. O declínio populacional não foi causado simplesmente pela perda da fé; isolamento e falta de oportunidades tiveram grande peso. Ao mesmo tempo, a participação regular na igreja também caiu. A identidade adventista permaneceu mais forte que a prática religiosa.
No final do século XX, vieram à luz denúncias de graves abusos cometidos durante muitos anos contra meninas e mulheres da comunidade. Os processos de 2004 resultaram na condenação de vários homens, incluindo uma autoridade política local. Não precisamos transformar o sofrimento das vítimas em espetáculo. Basta reconhecer que pecados graves permaneceram ocultos ou tolerados durante décadas.
Uma parte da defesa tentou dizer que certas práticas eram culturalmente aceitas em Pitcairn. Essa alegação nos conduz ao centro espiritual da mensagem. A cultura pode explicar como um comportamento passou a ser tolerado; não pode transformar injustiça em justiça. Quando um costume fere e silencia o vulnerável, a Palavra de Deus deve julgar a cultura. A cultura não pode reescrever a Palavra para proteger o pecado.
Também precisamos ser cuidadosos: não devemos concluir que o afastamento da igreja produziu automaticamente aqueles crimes, nem imaginar que ambientes externamente religiosos estão protegidos contra eles. Pecados assim podem existir justamente onde a comunidade prefere preservar sua reputação, evita perguntas difíceis e confunde silêncio com unidade.
A forte identidade religiosa de Pitcairn não impediu o pecado silencioso.
Uma comunidade pode guardar o sábado e não guardar o próximo. Pode defender doutrinas corretas e não proteger os vulneráveis. Pode conhecer os mandamentos e ainda desenvolver mecanismos para não enxergar aquilo que acontece perto dela. Pode falar da missão no passado e perder a coragem moral no presente.
Tiago 1:22–25 adverte que devemos ser praticantes da Palavra, e não apenas ouvintes que enganam a si mesmos. A imagem usada pelo apóstolo é a do espelho. A Palavra não nos foi dada apenas para confirmar aquilo que já pensamos. Ela nos mostra quem somos. A comunidade que se recusa a olhar honestamente para si pode conservar sua religião e, ainda assim, esquecer sua verdadeira condição.
Possuir uma Bíblia, conhecer suas doutrinas e defender sua autoridade não são a mesma coisa que permitir que ela examine nossas práticas. Às vezes, o maior sinal de fidelidade não é proteger a imagem da comunidade, mas permitir que a verdade venha à luz, que o vulnerável seja ouvido e que o pecado seja tratado com justiça.
Não basta que a Bíblia faça parte de nossa história; ela precisa julgar nossas práticas.
A igreja e a memória
Pitcairn não é apenas uma história sobre uma ilha remota. É um espelho para qualquer comunidade religiosa antiga. Toda igreja que recebe um legado enfrenta um perigo silencioso: transformar testemunhos em fotografias, missão em tradição e sacrifícios em lembranças.
A Igreja Adventista Central de Mafra, como tantas congregações antigas, também não começou com a geração atual. Antes de nós, outros oraram, pregaram, ensinaram crianças, contribuíram e serviram. Há uma história, uma organização, ministérios, jovens, Desbravadores, Aventureiros e diferentes gerações reunidas. Tudo isso merece gratidão.
Mas a experiência dos pioneiros não pode substituir nossa própria fidelidade. Honramos os pioneiros não apenas contando o que fizeram, mas continuando aquilo que começaram. Uma igreja não permanece viva apenas porque conserva seu endereço, seu nome ou sua estrutura. Permanece viva quando a Palavra continua formando pessoas, corrigindo caminhos e enviando discípulos.
À igreja de Éfeso, Cristo disse: "Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras" (Apocalipse 2:5). Lembrar é necessário, mas não suficiente. A memória deve conduzir ao arrependimento, e o arrependimento deve conduzir à ação.
A comparação com Pitcairn não é uma acusação contra Mafra. É uma advertência dirigida a todas as igrejas, inclusive à nossa: nenhuma história de fidelidade torna uma comunidade automaticamente fiel no presente. Nenhum patrimônio espiritual dispensa a nova geração de escolher a verdade.
O que a próxima geração contará a nosso respeito? Que conservamos um prédio? Que mantivemos uma instituição? Ou que recebemos a chama da missão e a entregamos ainda acesa?
O Livro encontrado e a aliança renovada
Voltemos ao texto com o qual começamos. Durante o reinado de Josias, o templo de Jerusalém estava sendo reparado. Havia trabalhadores, recursos e atividade religiosa. Então o sacerdote Hilquias fez uma descoberta: encontrou o Livro da Lei dentro da Casa do Senhor.
A Palavra estava no templo, mas havia desaparecido da vida do povo. Estava perto do altar, mas distante das decisões. Fazia parte da herança de Israel, mas já não orientava Israel.
Quando o livro foi lido diante de Josias, o rei não disse: “Que objeto interessante de nossa história.” Não mandou colocá-lo numa vitrine. Rasgou suas vestes porque entendeu que a vida da nação estava em desacordo com a vontade de Deus.
A sequência do relato é decisiva: o Livro foi encontrado; o Livro foi lido; o pecado foi reconhecido; o povo foi reunido; a aliança foi renovada; e a vida comunitária começou a ser reformada.
Segundo 2 Reis 23:1–3, Josias reuniu líderes e povo e leu diante deles as palavras do Livro da Aliança. Depois assumiu publicamente o compromisso de seguir o Senhor e guardar seus mandamentos de todo o coração. O povo confirmou a aliança.
A reforma não começou com uma nova técnica administrativa. Começou quando a Palavra voltou a ser ouvida. Josias não encontrou uma nova verdade. Redescobriu uma verdade antiga que havia sido esquecida.
Pitcairn possuía a Bíblia retirada do Bounty. Durante anos ela ensinou e ajudou a reorganizar a comunidade. Depois tornou-se também uma relíquia histórica, preservada e exibida. Judá também possuía o Livro. Ele estava dentro do templo. Nos dois casos, surge a pergunta: de que adianta a Palavra estar fisicamente presente se já não governa moralmente a comunidade?
Uma Bíblia preservada não é necessariamente uma Bíblia obedecida. Uma doutrina conhecida não é necessariamente uma doutrina vivida. Uma igreja antiga não é necessariamente uma igreja fiel.
Não basta que a Bíblia faça parte de nossa história; ela precisa voltar ao coração da comunidade.
Quando a Palavra volta a orientar
Talvez nossa maior necessidade não seja descobrir algo novo, mas voltar àquilo que nunca deveríamos ter abandonado: ouvir a Palavra, reconhecer nossos pecados, proteger os vulneráveis, renovar nossa aliança e retomar a missão.
Hoje não somos chamados a desprezar nossa história. Somos chamados a recebê-la com responsabilidade. O navio Pitcairn lembra que a missão dependeu de pessoas comuns que ofertaram e de famílias que aceitaram partir. A Bíblia do Bounty lembra que Deus pode reconstruir uma comunidade ferida. O escândalo da ilha lembra que identidade religiosa sem vigilância, verdade e justiça não impede o pecado silencioso. Josias lembra que sempre é possível abrir novamente o Livro e renovar a aliança.
A pergunta não é apenas se temos uma Bíblia em nossa igreja. A pergunta é: a Bíblia ainda orienta nossa igreja?
Não é apenas se possuímos uma história missionária. É se a missão ainda vive em nós.
Não é apenas se somos herdeiros dos pioneiros. É se permanecemos fiéis ao Deus dos pioneiros.
Hoje, diante de Deus, podemos pedir que sua Palavra deixe de ser apenas parte de nossa memória e volte a ser nossa orientação. Podemos decidir que nenhum costume estará acima da verdade; nenhuma reputação será mais importante que a justiça; nenhum silêncio será confundido com unidade; e nenhuma geração viverá apenas da fé de seus antepassados.
Que o Livro seja novamente aberto. Que o coração seja novamente examinado. Que a aliança seja novamente assumida. E que a missão continue em nós.
Referências e leituras
Bíblia: 2 Reis 22–23; 2 Crônicas 34–35; Marcos 7:20–23; Tiago 1:22–25; Apocalipse 2:4–5.
Government of the Pitcairn Islands. About the Pitcairn Islands e History. https://www.government.pn/
Encyclopedia of Seventh-day Adventists. Pitcairn Island. https://encyclopedia.adventist.org/article?id=782T
Encyclopedia of Seventh-day Adventists. Tay, John Ives e Hannah Severens. https://encyclopedia.adventist.org/article?id=2IS4
Seventh-day Adventist Church, Stewardship Ministries. The Fuel of Mission. https://stewardship.adventist.org/the-fuel-of-mission
Alexander, Caroline. The Bounty: The True Story of the Mutiny on the Bounty. Viking, 2003.
Erskine, Nigel. The Historical Archaeology of Settlement at Pitcairn Island, 1790–1856.
Marks, Kathy. Lost Paradise: From Mutiny on the Bounty to a Modern-Day Legacy of Sexual Mayhem. Free Press, 2009.