A Hegemonia da Mediocridade: O Império da Pedagogia e o Fim da Escola Técnica
A educação no Brasil está passando por um processo de desgaste estrutural. O que antes era um equilíbrio saudável entre saber a matéria e saber ensinar virou, em muitos casos, um monopólio de discursos teóricos que, na prática, acabou esvaziando o rigor das salas de aula. Para entender o cenário atual, é preciso olhar para o que aconteceu com o papel do pedagogo: ele foi deslocado de sua função original de "professor dos professores" para se tornar, muitas vezes, um gestor focado mais em diretrizes ideológicas e burocráticas do que na excelência do conteúdo.
O Pedagogo como Braço Direito: O que tínhamos há 40 anos
Há quarenta anos, a Pedagogia possuía um papel técnico essencial e muito respeitado. Os pedagogos eram os grandes mestres dos mestres. Naquela época, o Magistério era a base prática que alfabetizava com precisão, enquanto os cursos técnicos — como o Científico ou o (quase) onipresente Técnico em Contabilidade — preparavam o jovem para os desafios do mundo real. O pedagogo era o especialista que chegava para refinar o método de ensino e garantir a qualidade da instrução.
Naquela época, quando faltava um professor de Física ou Química (disciplinas que sempre enfrentaram carência de especialistas), eram esses pedagogos de formação sólida que assumiam o comando da sala. O diferencial estava na postura ética e profissional: diante de uma lacuna no conteúdo, o professor-pedagogo estudava o material a fundo e buscava cumprir o programa com fidelidade. Não se buscava "reinventar a roda" ou usar a política para mascarar a falta de domínio da matéria. O ensino era pragmático e eficiente. O pedagogo era a liderança que garantia que o aluno recebesse o conhecimento correto, sem as facilitações que acabam prejudicando o desenvolvimento intelectual do estudante.
O Superávit de Gestão e o Declínio do Magistério
Hoje, vivemos uma realidade diferente. Existe um superávit de profissionais da Pedagogia que, por força de uma estrutura de mercado, acabaram ocupando quase todos os espaços de decisão escolar. A tarefa da alfabetização, que as professoras do Magistério realizavam com enorme habilidade técnica e foco em resultados, passou a ser tratada como prerrogativa de uma formação superior que, muitas vezes, prioriza a teoria acadêmica em detrimento da prática de sala de aula. Nesse caminho, muito do saber prático e do método das antigas normalistas foi deixado de lado sob o róulo de "tradicional", sendo substituído por abordagens que nem sempre entregam a mesma eficiência na alfabetização e no raciocínio matemático.
Essa hegemonia estende-se para além dos anos iniciais. Os pedagogos ocupam hoje as coordenações, orientações, supervisões e cargos de liderança nas redes públicas. O problema não é a presença desses profissionais, mas sim o fato de que a formação atual, muitas vezes, carece de uma base sólida em lógica e ciências exatas, o que acaba gerando uma gestão escolar que tem dificuldade em valorizar e cobrar o rigor nessas áreas. Sobre este cenário de esvaziamento da formação docente, a pesquisadora Bernardete Gatti traz uma contribuição fundamental:
"As estruturas curriculares dos cursos de Pedagogia no Brasil têm se caracterizado por uma fragmentação excessiva e por um distanciamento perigoso das competências específicas necessárias para o ensino das disciplinas de base. Observa-se um currículo que prioriza fundamentos teóricos genéricos — sociológicos, filosóficos e históricos — mas que negligencia a didática dos conteúdos, especialmente nas áreas de Matemática e Ciências Naturais. O professor sai da graduação sabendo 'sobre' a educação, mas sem o domínio técnico de 'como' ensinar conceitos complexos ou como estruturar o raciocínio lógico do aluno. Essa fragilidade técnica é o que gera a insegurança na sala de aula e, por consequência, o recuo diante da exigência cognitiva, pois não se pode cobrar com rigor aquilo que não se domina metodologicamente." (GATTI, Bernardete. Formação de Professores no Brasil: Características e Problemas. Educação & Sociedade, 2010, adaptado).
A Substituição do Conteúdo pelo Discurso e o Recuo das Exatas
Essa ocupação dos postos de comando trouxe consigo uma mudança de prioridades. A escola, em muitos momentos, deixou de ser o centro do saber sistematizado para se tornar um espaço de experimentação social. Conceitos como "acolhimento" e "inclusão" — que são fundamentais na Educação Infantil e para alunos com deficiência (PcDs) — estão sendo usados de forma equivocada para justificar a redução da exigência cognitiva com adolescentes do Ensino Médio. Esse modelo de gestão acaba por fragilizar o ensino das Ciências Exatas.
Atualmente, muitos gestores tendem a enxergar a Matemática como um elemento "excludente", em vez de vê-la como a ferramenta que liberta a mente e constrói a autonomia. Quando um professor de Matemática ou Física tenta manter o nível de exigência necessário, sempre, no contexto atual, enfrenta resistências da coordenação, que interpreta o rigor como "insensibilidade" ou falta de "compreensão do contexto social". O professor José Carlos Libâneo descreve este fenômeno como o "esvaziamento da escola pública":
"Instalou-se uma cultura pedagógica que prioriza o acolhimento social e a sociabilidade em detrimento da instrução. Sob o pretexto de uma escola inclusiva e democrática, abriu-se mão do ensino dos conteúdos sistematizados. O que vemos hoje é o 'pedagogismo', uma corrente que acredita que a função da escola é apenas a socialização e o suporte emocional, tratando o conhecimento científico como algo secundário ou 'elitista'. Ao fazer isso, a escola pública retira das classes populares a única ferramenta de ascensão e compreensão crítica do mundo: o saber elaborado. O resultado é uma exclusão interna: o aluno está dentro da escola, é 'acolhido', mas permanece marginalizado do ponto de vista intelectual, pois não lhe oferecidas as bases lógicas para competir em pé de igualdade com os alunos das escolas privadas, onde o rigor e o conteúdo nunca foram abandonados." (LIBÂNEO, José Carlos. Adeus Professor, Adeus Professora?. São Paulo: Cortez, 2011, p. 88-94).
O Contraponto: A Educação como Diálogo e Humanização
Embora a crítica ao esvaziamento técnico seja contundente, existe uma vertente fundamental do pensamento pedagógico que argumenta que o rigor técnico, isolado da realidade humana e social do aluno, pode converter-se numa "educação bancária" — onde o conhecimento é meramente depositado num recetáculo passivo. Para os defensores desta linha, o foco no "método pelo método" pode alienar o estudante da sua própria capacidade de transformar o mundo. Paulo Freire, o expoente máximo desta perspetiva, defende que a técnica deve estar a serviço da autonomia:
"Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção. Quando o professor se limita à transmissão técnica de conteúdos enfadonhos, sem conexão com a vida do educando, ele pratica uma castração intelectual. O rigor não deve ser confundido com autoritarismo ou com o desprezo pela bagagem cultural do aluno. Pelo contrário, o verdadeiro educador crítico sabe que o respeito ao saber de experiência feito com que o aluno chega à escola é o primeiro passo para o desenvolvimento da curiosidade epistemológica. A técnica é necessária, mas ela deve ser precedida por uma ética de respeito ao outro e por uma compreensão política de que a educação é um ato de liberdade, e não de domesticação através de fórmulas e repetições vazias." (FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1996, p. 22-30, adaptado).
Esta perspetiva sugere que a crise atual não seria apenas fruto de uma "falta de técnica", mas talvez de uma incapacidade do sistema em integrar o rigor científico com a sensibilidade pedagógica necessária para motivar as novas gerações.
A Lacuna entre o Saber Fazer e a Teoria Abstrata
O professor formado no antigo Magistério dominava as "ferramentas de ofício": possuía uma caligrafia voltada para o ensino, sabia organizar o quadro negro de forma lógica (escrevendo de forma reta, criando esquemas visuais claros) e dominava recursos didáticos manuais que ajudavam o aluno a passar do pensamento concreto para o abstrato. A formação pedagógica moderna, focada excessivamente em teorias sociais e abstrações, negligencia esse repertório prático. O resultado é uma aula visualmente menos estruturada, onde o discurso teórico sobre a realidade acaba ocupando o espaço que deveria ser do desenvolvimento da capacidade lógica e de resolução de problemas.
Sobre a importância de não se abandonar o rigor em nome de um "aprender a aprender" vazio, o autor Newton Duarte oferece uma crítica contundente ao que ele chama de "Pedagogia do Aprender a Aprender":
"O esvaziamento do papel do professor como transmissor da cultura elaborada é um dos maiores equívocos da pedagogia contemporânea. Ao transformar o mestre em um mero 'facilitador' ou 'animador', retira-se o peso da ciência e da objetividade do processo educativo. Especialmente nas ciências exatas, onde o conhecimento é cumulativo e exige rigor lógico, a falta de uma direção pedagógica firme e de um método estruturado resulta em um aprendizado superficial. O discurso de que o aluno deve construir seu próprio conhecimento a partir de sua vivência é, em última análise, um discurso conservador, pois limita o horizonte intelectual do aluno àquilo que ele já conhece. A verdadeira educação exige a superação do senso comum pelo conhecimento científico, o que só é possível através do ensino sistemático e do esforço intelectual dirigido." (DUARTE, Newton. Vigotski e o Aprender a Aprender. Campinas: Autores Associados, 2001, p. 102-110).
Estamos diante de um descompasso educacional. Oferece-se uma imagem de escola humanizada, mas entrega-se ao jovem uma base frágil, incapaz de interpretar dados complexos ou seguir raciocínios lógicos sequenciais. Enquanto as elites garantem o rigor acadêmico para seus filhos em instituições privadas, o sistema público, sob essa mentalidade pedagógica atual, acaba oferecendo um ensino esvaziado, disfarçado de proteção e carinho. Conclusão: O Resgate do Equilíbrio É urgente equilibrar a sensibilidade humana com o rigor factual. A educação não pode ser apenas um espaço de convivência social; ela é, acima de tudo, o processo de aquisição de competências intelectuais duradouras. Precisamos devolver o protagonismo ao professor que domina o conteúdo e resgatar o pragmatismo técnico que era a marca do antigo Magistério. Dermeval Saviani sintetiza esse imperativo de forma magistral:
"A educação é o ato de produzir, em cada indivíduo singular, a humanidade que foi produzida histórica e coletivamente pelo conjunto dos homens. Isso significa que o papel da escola é transmitir o que há de mais avançado na ciência, na técnica e na arte. Quando a pedagogia recua e se foca apenas no imediato, no subjetivo ou no afetivo, ela nega ao indivíduo o acesso à sua própria essência humana enquanto ser capaz de razão. A democracia na escola não consiste em baixar as exigências para que todos passem, mas em elevar as condições de ensino para que todos aprendam. O rigor não é o oposto do afeto; o maior afeto que um professor pode dedicar a seu aluno é tratá-lo como um ser capaz de aprender os conhecimentos mais difíceis e complexos da humanidade." (SAVIANI, Dermeval. Pedagogia Histórico-Crítica. Campinas: Autores Associados, 2013, p. 34-40).
Enquanto o sistema for gerido por uma visão que subestima as ciências exatas e usa a vulnerabilidade social como justificativa para não cobrar o empenho do aluno, continuaremos a formar cidadãos que dominam o discurso, mas carecem da técnica. O verdadeiro acolhimento é o ensino de alta qualidade. O papel do educador é elevar o aluno, oferecendo as ferramentas necessárias para que ele alcance o nível da ciência e da cultura, em vez de rebaixar as exigências da escola ao nível da fragilidade do sistema atual.