Sapataria de Gabriel Vieira

A história de uma família muitas vezes é costurada por fios invisíveis de amizade, necessidade e fé. No caso de meu pai, Gabriel Vieira, esses fios começaram a se entrelaçar na Joinville dos anos 50, entre o cheiro do couro curtido e o som compassado do martelo na sapataria onde ele construiu seu nome e sua vida.


O Encontro Providencial: Shunemann e as Primeiras Sementes

Tudo começou com a contratação de um "coureiro", um certo Valfrido Shunemann. Vindo de Mafra, Shunemann apresentou-se como selador; precisava desesperadamente de trabalho em Joinville para custear o tratamento médico de um filho (ou filha, a memória falha no detalhe, mas não na urgência do fato). O que meu pai não sabia era que Valfrido trazia consigo mais do que habilidades técnicas: trazia uma identidade religiosa que, embora não adventista, guardava o sétimo dia — um sabatista convicto da região dos Butiá dos Tabordas.

Por influência desse novo funcionário, meu pai conheceu Jonas Roeder, outro sabatista, este filiado à Igreja Adventista da Promessa. Jonas acabou comprando parte das terras de meu pai no Rio Velho, uma região então isolada e alagadiça no bairro Paranaguamirim. Foi ali, naquelas terras difíceis, que a tragédia visitou a família Roeder: dois de seus filhos morreram afogados em lagos da propriedade. O golpe foi tão duro que Jonas vendeu tudo e retornou para Mafra, mas o vínculo com os sabatistas de origem alemã já havia se tornado parte da geografia espiritual de meu pai.

“Essa relação com sabatistas de origem alemã levou meu pai a uma amizade profunda com as famílias Fuckner e Milbratz, em especial o Sr. Silvio e a Dona Hilda Fuckner, e Reinaldo Milbratz.”

O Ciclo da Amizade e dos Negócios

Com a família Fuckner, houve um longo processo de enlaces comerciais e afeto que desafiava a lógica dos negócios comuns. O Sr. Silvio Fuckner comprou as terras que foram do Jonas, depois comprou terras do meu pai, e por fim, comprou a própria sapataria. Tempos depois, os papéis se invertiam: meu pai comprava as terras de volta, depois a sapataria. Silvio trabalhou por muito tempo como gerente da fábrica de calçados e loja de meu pai, demonstrando uma confiança que transcendia contratos.

Durante esse período de intensas trocas, a vida pessoal de Gabriel Vieira sofreu um abalo sísmico: meu pai viuvou, ficando sozinho com dez filhos em 1975. Naquela época, um viúvo com tamanha prole não era exatamente a condição familiar ideal para ninguém, mas meu pai pretendia se casar novamente, seguindo alguns critérios: a mulher não poderia ser separada ou divorciada e, preferencialmente, que tivesse poucos ou nenhum filho.

Foi então que Dona Hilda, com seu inconfundível sotaque alemoado e voz fina, sentenciou com o humor que a família sempre imita com carinho:

“Seu Gabriel, eu já sei a mulher que vai casar com o senhor...”


A Colportora e o Destino

A "mulher indicada" era minha mãe. Natural de Passo Fundo, mas vivendo em Maravilha, ela havia partido para Taquara (RS) para trabalhar em uma casa de família. Não encontrando as pessoas indicadas, acabou acolhida na casa do Pastor Anísio Chagas. Ali, converteu-se ao adventismo e, incentivada pelo pastor, voltou aos estudos do ginásio no IACS.

Nas férias de 1976, aos 31 anos e solteira, herdeira de uma coragem silenciosa, ela veio colportar em Joinville — uma prática comum entre estudantes adventistas para custear os estudos. O destino (ou a providência de Dona Hilda) fez com que ela ficasse hospedada justamente na casa dos Fuckner.

Embora meu pai nunca tenha se batizado na Igreja Adventista — permanecendo fiel aos Assembleianos até o fim de seus dias —, ele sempre foi um grande simpatizante e amigo da comunidade. O casamento aconteceu, unindo a sapataria de Joinville aos sonhos da estudante de Taquara.

Círculos que se Encontram

A vida tem formas curiosas de fechar seus ciclos. Anos depois, vim morar em Mafra, a terra de origem daqueles primeiros sabatistas que meu pai conheceu. Logo descobri que um dos meus vizinhos era ninguém menos que Jonas Roeder, o mesmo que perdera os filhos no Paranaguamirim décadas antes.

Em 2009, tive o privilégio de levar meu pai para visitar o velho Shunemann. A emoção que testemunhei naquela tarde lá na casa simples do agora idoso, porém, forte Valfrido Shunemann, no Butiá dos Tabordas, é impossível de descrever totalmente em palavras. Ao ver meu pai, as mãos calejadas de Valfrido Shunemann tremiam enquanto ele exclamava:

“Quem diria que eu voltaria a ver o seu Gabriel nessa vida!!!”

Eles riram e choraram, lembrando que a história de um sapateiro de Joinville não foi escrita apenas com couro e sola, mas com a lealdade de amigos que o tempo e a distância jamais conseguiram apagar.

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