O tamanho da cidade e o poder do patrão
Durante os anos em que trabalhei com tecnologia e telecomunicações, tive a oportunidade de conhecer empresas de diferentes tamanhos e conviver com pessoas de várias cidades. Como costumo fazer com aquilo que está à minha volta, comecei a comparar comportamentos. Uma dessas comparações me acompanha até hoje: o tamanho de uma empresa parece ter uma relação bastante limitada com a importância que seu proprietário atribui a si mesmo.
Uma boa loja de bairro de Joinville pode movimentar mais dinheiro, atender mais pessoas e possuir uma estrutura maior que a de um comerciante considerado importante numa cidade pequena. Mesmo assim, o primeiro proprietário pode se enxergar como mais um empresário tentando manter seu negócio funcionando. O segundo, pelo que observo, às vezes se comporta como uma autoridade da cidade.
Foi trabalhando em Taió que percebi isso com mais clareza. Eu olhava para o tamanho da cidade e estranhava a postura de alguns comerciantes. A impressão era de estar diante de pessoas que administravam grandes redes, embora seus negócios estivessem concentrados naquele pequeno universo local.
Depois compreendi que minha comparação estava incompleta. Eu estava olhando para o número de habitantes. Precisava observar também o lugar que cada cidade ocupava em sua região.
O tamanho da cidade e o tamanho de sua influência
Taió é uma cidade pequena. No Censo de 2022, tinha aproximadamente 18,3 mil habitantes. Itaiópolis, com cerca de 22,1 mil, e Papanduva, com 19,2 mil, eram mais populosas. Esses números dizem respeito aos municípios inteiros, incluindo suas áreas rurais (IBGE, Censo 2022).
Entretanto, na minha experiência, Taió ocupa uma posição diferente. Funciona como referência para diversas localidades ainda menores, em uma área rural que considero relativamente próspera. Seu comércio atende um mercado que ultrapassa a população do próprio município. A importância desse papel aparece inclusive na documentação de elaboração do Plano Diretor, que prevê fortalecer Taió como polo regional de comércio e serviços do Vale Oeste (Município de Taió, 2021).
Itaiópolis e Papanduva, embora maiores em população, têm em RioMafra uma referência regional importante. E aqui é necessário considerar as duas cidades: Mafra, em Santa Catarina, e Rio Negro, no Paraná. Quando me refiro ao mercado local, estou pensando nesse espaço cotidiano de circulação, trabalho, compras e serviços que atravessa a divisa estadual.
A fronteira entre os estados não impede que as pessoas organizem sua vida entre os dois municípios.
Rio Negrinho apresenta outra situação. Está na mesma ordem de grandeza populacional de Mafra, embora exista uma diferença considerável: no Censo de 2022, eram aproximadamente 39,3 mil habitantes em Rio Negrinho e 55,3 mil em Mafra. Portanto, não são municípios de população equivalente (IBGE, Censo 2022).
O contraste que me interessa, porém, aparece na relação com São Bento do Sul. Em Rio Negrinho, percebo mais fortemente a sensação de estar numa cidade pequena diante da vizinha. Em algumas situações, parece um “anexo” de São Bento. Uso essa expressão para descrever uma percepção de escala e de referência comercial, sem desconsiderar a identidade e a atividade econômica de Rio Negrinho.
São Bento está logo ali. Joinville também faz parte desse horizonte regional de comparação. Já em RioMafra, percebo uma autonomia maior como referência para as cidades do entorno. A presença de Joinville e Curitiba como alternativas não tem a mesma proximidade imediata que São Bento representa para Rio Negrinho.
Por isso, considero necessário separar quatro coisas: a população da cidade, o mercado que ela atende além de suas fronteiras, a força econômica desse entorno e a facilidade de acesso a centros maiores. A própria pesquisa Regiões de Influência das Cidades, do IBGE, analisa a rede urbana por meio da oferta de bens e serviços, da gestão e dos fluxos entre cidades (IBGE, REGIC 2018).
Minha impressão é que essa posição regional também modifica a maneira como o empresário se percebe. Em Taió, ele pode ser pequeno numa comparação estadual e muito importante para quem vive ao redor. Em Joinville, mesmo um negócio expressivo divide espaço com inúmeras empresas maiores. A referência muda.
Há pesquisas mostrando que a avaliação da própria condição econômica depende também da situação das pessoas ao redor. Erzo Luttmer encontrou uma associação entre a renda dos vizinhos e o bem-estar individual, mesmo levando em conta a renda da própria pessoa. O estudo não trata dos comerciantes dessas cidades, mas oferece uma base para compreender a importância da comparação relativa (Luttmer, 2005).
Quando a empresa se confunde com o proprietário
Essa importância local aparece, na minha percepção, na maneira de atender, negociar e receber uma crítica. Há estabelecimentos em que a compra parece envolver um reconhecimento pessoal ao proprietário. O desconto, o prazo ou uma facilidade são apresentados como concessões de alguém com quem se deve manter uma boa relação.
Reconheço que há quem goste disso. Eu prefiro uma relação mais funcional. Gosto de sentir que o dinheiro está circulando por uma empresa, pagando por um produto ou serviço, dentro de condições claras. Não quero que uma compra me coloque numa relação de gratidão com o dono do estabelecimento.
Nas relações de trabalho, essa diferença me parece ainda mais sensível.
Em comparação com minha experiência em Joinville e Maringá, percebo em parte das relações profissionais de Mafra uma presença maior da pessoa do patrão. Nas conversas, é frequente ouvir que alguém trabalha “para o Fulano”. A expressão, sozinha, não significa muita coisa. O que chama minha atenção é quando vem acompanhada da ideia de que o emprego foi uma ajuda e de que o trabalhador deve agradecer continuamente pela oportunidade.
O emprego passa a ser vivido como um favor.
Esse comportamento não corresponde à minha própria relação atual de trabalho. É algo que observo nas experiências e conversas de outras pessoas. Em certos relatos, parece haver dificuldade até para estabelecer os limites da função. Se o trabalhador já concluiu sua atividade, espera-se que esteja disponível para qualquer outra necessidade do proprietário. Questionar isso pode ser recebido como falta de disposição ou de reconhecimento.
A literatura oferece um conceito próximo: paternalismo empresarial. Em um estudo sobre antigos trabalhadores da Companhia Brasileira do Cobre, em Minas do Camaquã, Norberto Ornelas analisa como proteção, ajuda e benefícios concedidos pelo empregador podem estabelecer vínculos de reciprocidade, dependência e dívida moral (Ornelas, 2024).
É um estudo de outro contexto, mas o mecanismo ajuda a compreender minha observação. A ajuda pode ser verdadeira e a gratidão pode ser sincera. Ainda assim, essa relação pode tornar mais difícil discordar, cobrar condições melhores ou questionar uma decisão.
Já usei “colonialismo” e “coronelismo” para descrever meu incômodo com esse ambiente. Entretanto, esses termos possuem significados que não podem ser misturados livremente. José Murilo de Carvalho distingue mandonismo, coronelismo e clientelismo e mostra como a imprecisão conceitual prejudica a análise do poder local. Para boa parte das relações empresariais que estou descrevendo, paternalismo é um ponto de partida mais adequado (Carvalho, 1997).
A crítica técnica recebida como ofensa
Eu já fui expulso de um escritório depois de questionar uma instalação de fibra óptica que estava encostada na rede de baixa tensão. O trabalho havia sido executado por um profissional que ficaria sob minha supervisão. Na minha leitura daquele episódio, o questionamento sobre a instalação foi recebido como uma afronta pessoal.
Essa experiência me marcou porque resume um problema que encontro em outras situações. Quando alguém aponta um erro, a conversa deixa de tratar do serviço e passa a tratar da autoridade de quem o executou ou de quem confiou naquele profissional.
O erro continua lá. A discussão é que mudou de assunto.
É o que costumo chamar de gambiarra institucional. Vejo relações em que o improviso se mantém porque exigir uma correção custa mais, socialmente, do que tolerar o problema. A pessoa que cobra passa a ser difícil. O serviço malfeito ganha uma justificativa. A boa convivência acaba dependendo da disposição de não insistir.
Também encontro despreparo profissional. Há serviços ruins, falta de domínio técnico e dificuldade para aceitar procedimentos. Minha impressão é que isso alimenta um circuito: paga-se pouco, investe-se pouco em formação, o resultado permanece ruim e esse resultado é usado para justificar a remuneração baixa.
Mas o salário, isoladamente, não permite medir a competência de quem trabalha. A quantidade de alternativas disponíveis também importa. A literatura sobre poder de monopsônio examina como a concentração de empregadores, as diferenças entre empregos e as dificuldades de mudar de empresa podem permitir remunerações inferiores à produtividade do trabalhador. A revisão de José Azar e Ioana Marinescu discute esses mecanismos (Azar; Marinescu, 2024).
Não medi a concentração do mercado de trabalho de Mafra. O conceito acrescenta uma questão à análise: quanto do salário depende da qualificação e quanto depende das possibilidades reais de procurar outro empregador? Para compreender a região, seria necessário olhar também para gestão, treinamento, equipamentos, mobilidade e oportunidades.
O calendário da família e o calendário da empresa
Há outro ponto que considero importante e que, na minha percepção, alguns departamentos de recursos humanos não compreendem suficientemente: a relação de parte da população com o trabalho por períodos.
Conheço pessoas, inclusive moradoras da área urbana, que organizam suas atividades conforme as épocas do ano. O emprego numa empresa pode entrar como uma etapa dessa organização. A família possui outros compromissos, outras atividades e outras possibilidades de renda. Nem sempre a intenção é permanecer o ano inteiro no mesmo trabalho.
A ligação de Mafra com atividades agrícolas é documentada. Na Síntese Anual da Agricultura de Santa Catarina de 2017–2018, com dados do Censo Agropecuário de 2017, o município aparece entre os dez principais produtores de tabaco do estado, com aproximadamente 5,7 mil toneladas. Trata-se de um dado daquele período, não de uma estimativa para a safra atual (Epagri/Cepa, 2017–2018, p. 98).
A literatura sobre pluriatividade ajuda a pensar essa organização. Sérgio Schneider analisa a combinação de atividades agrícolas e não agrícolas como uma estratégia de reprodução econômica e social das famílias. A unidade familiar, portanto, pode ser mais esclarecedora que a observação isolada de um emprego (Schneider, 2003).
Pluriatividade não significa necessariamente trabalho sazonal. Também não permite concluir que a população urbana de Mafra, em geral, prefira empregos temporários. Mas oferece uma maneira de investigar algo que percebo: morar na cidade não significa ter rompido os vínculos econômicos e familiares com o campo.
Imagino o desencontro que isso pode produzir. A empresa contrata esperando construir uma equipe permanente. A pessoa aceita porque aquela oportunidade faz sentido naquele momento do ano. Se essas expectativas não forem compreendidas, os dois lados podem considerar que o outro falhou.
A própria sazonalidade das atividades econômicas também precisa entrar nessa conta. Seria incompleto atribuir toda alternância de trabalho à vontade do empregado sem investigar quais empregos permanentes e temporários são oferecidos na região.
A empresa que vem de fora
Conheço empresas de fora que se instalaram na cidade oferecendo salários que considero baixos, embora compatíveis com aqueles praticados localmente. Suspeito que esse custo tenha participado da decisão de algumas delas. Para afirmar isso em cada caso, porém, seria necessário conhecer os critérios do investimento. Logística, fornecedores, infraestrutura e mercado também podem influenciar a escolha.
O problema que procuro levantar é outro: conhecer o salário praticado numa cidade não significa conhecer seu mercado de trabalho. É preciso compreender as expectativas das famílias, as atividades concorrentes, a disponibilidade ao longo do ano e o tipo de relação que as pessoas esperam estabelecer com o empregador.
Tenho ainda a percepção de que existe maior disposição para levar conflitos com empresas externas à Justiça do Trabalho. Conheço situações em que as alegações me pareceram muito distantes daquilo que eu conhecia dos acontecimentos. Isso me faz perguntar se enfrentar uma empresa impessoal tem um significado diferente de enfrentar um patrão inserido nas relações locais.
Uma possibilidade é que o custo social seja diferente. Questionar um empregador conhecido pode envolver relações familiares, referências profissionais e pessoas que continuarão presentes na vida do trabalhador. A empresa externa talvez não ocupe esse mesmo lugar. É uma hipótese que considero relevante, mas que exige comparação entre casos.
Os registros consultados não permitem transformar essa percepção num diagnóstico da população mafrense. A ata de correição da Vara do Trabalho de Mafra, de 2024, registra redução dos casos novos de conhecimento nos anos anteriores. Esse volume, entretanto, não informa por si só a frequência de ações por trabalhador nem distingue empresas locais de externas (TRT-12, 2024).
Para avaliar minha impressão, seria necessário comparar empresas semelhantes, considerar o número de trabalhadores e desligamentos e examinar os pedidos, as provas e os resultados dos processos. A maneira como uma alegação chega até mim não substitui a análise dos autos.
Mesmo assim, a pergunta permanece. Por que uma condição de trabalho pode ser tolerada numa relação e contestada em outra? Quanto disso depende das condições concretas, quanto depende das alternativas disponíveis e quanto passa pelo vínculo pessoal com o empregador?
Essas questões aproximam assuntos que, à primeira vista, parecem separados. O comerciante que se percebe como uma autoridade local, o trabalhador que trata o emprego como favor, a crítica técnica recebida como ofensa e a empresa que desconhece o calendário das famílias fazem parte da mesma reflexão sobre como organizamos nossas relações profissionais.
Tenho preferência por relações em que seja possível conversar sobre o trabalho com objetividade. Quero poder avaliar um serviço, apontar um erro e discutir uma condição sem precisar calcular o tamanho da dívida de gratidão ou da ofensa pessoal que isso produzirá. Para mim, essa possibilidade é um critério bastante concreto de profissionalismo.
Referências bibliográficas e documentais
IBGE. Censo Demográfico 2022: população dos municípios. Resultados da segunda apuração, atualizados em 22 de dezembro de 2023. Relação municipal.
MUNICÍPIO DE TAIÓ. Projeto de Lei Complementar do Plano Diretor Participativo. Documento disponibilizado em 2021. Diretrizes de fortalecimento do município como polo regional de comércio e serviços do Vale Oeste. Documento.
IBGE. Regiões de Influência das Cidades 2018. Rio de Janeiro: IBGE, 2020. Publicação e bases de dados.
LUTTMER, Erzo F. P. Neighbors as Negatives: Relative Earnings and Well-Being. The Quarterly Journal of Economics, v. 120, n. 3, p. 963–1002, 2005. DOI: 10.1093/qje/120.3.963.
ORNELAS, Norberto Quintana Guidotti de. A dádiva paternalista: apontamentos sobre a reciprocidade das concessões na cidade-empresa. CAOS — Revista Eletrônica de Ciências Sociais, v. 1, n. 32, p. 87–106, 2024. Artigo.
CARVALHO, José Murilo de. Mandonismo, coronelismo, clientelismo: uma discussão conceitual. Dados, v. 40, n. 2, 1997. DOI: 10.1590/S0011-52581997000200003.
AZAR, José; MARINESCU, Ioana. Monopsony power in the labor market. Handbook of Labor Economics, v. 5, p. 761–827, 2024. DOI: 10.1016/bs.heslab.2024.11.007.
EPAGRI/CEPA. Síntese Anual da Agricultura de Santa Catarina 2017–2018. Seção sobre tabaco, p. 98. Dados do Censo Agropecuário de 2017. Publicação.
SCHNEIDER, Sérgio. Teoria social, agricultura familiar e pluriatividade. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 18, n. 51, 2003. Artigo.
TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO DA 12ª REGIÃO. Ata de Correição Ordinária da Vara do Trabalho de Mafra. 2 abr. 2024. Documento.