O novo mapa da ONU e a ideologia colocada onde não precisava estar
Recentemente, a Organização das Nações Unidas aprovou uma resolução incentivando a substituição da projeção de Mercator por uma projeção que conserve melhor a proporção entre as áreas dos continentes. A notícia foi apresentada como uma correção histórica. Segundo seus defensores, o mapa de Mercator diminuiria visualmente a África e outras regiões próximas ao Equador, enquanto aumentaria a Europa, a América do Norte e outras terras do Hemisfério Norte. A mudança seria, assim, uma maneira de combater uma visão colonialista e devolver aos povos historicamente oprimidos sua verdadeira dimensão.
A nova projeção realmente representa melhor a proporção entre as áreas. Isso é matematicamente verificável e não encontro qualquer motivo para negar essa qualidade. O que me incomoda é a necessidade de transformar uma questão conhecida da Cartografia numa nova batalha entre opressores e oprimidos.
Antes de qualquer discussão política, existe um problema geométrico bastante simples: a Terra é aproximadamente esférica e a folha de papel é plana. Não é possível abrir uma esfera sobre uma mesa sem esticar, comprimir, rasgar ou sobrepor alguma de suas partes. Qualquer representação plana do planeta precisa deformar alguma coisa. Pode deformar as áreas, os ângulos, as formas, as distâncias ou as direções. Na maioria das vezes, deforma várias dessas propriedades ao mesmo tempo.
Por isso existem tantas projeções cartográficas. Cada uma foi criada para determinada finalidade e deve ser julgada de acordo com aquilo que pretende preservar. Um mapa adequado para comparar o tamanho dos continentes pode ser ruim para traçar uma rota. Um mapa útil para a navegação pode transmitir uma impressão incorreta sobre a proporção entre as áreas. Outro pode conservar razoavelmente as formas na região central e produzir deformações enormes nas extremidades.
A projeção de Mercator foi apresentada em 1569 para favorecer a navegação. Sua grande vantagem é conservar localmente os ângulos. Nela, uma rota de rumo constante, chamada loxodromia, pode aparecer como uma linha reta. Isso foi extremamente útil aos navegadores que trabalhavam com bússolas e cartas náuticas. Latitude, longitude e direção podiam ser relacionadas de maneira prática.
Mercator não produziu seu mapa para aumentar os Estados Unidos, pois os Estados Unidos nem existiam. Também não há motivo sério para acreditar que tenha desenvolvido toda aquela construção matemática com o propósito de fazer a Groenlândia parecer tão importante quanto a África. O aumento das regiões próximas aos polos é consequência daquilo que a projeção procura conservar. Para manter os ângulos, a escala precisa crescer à medida que se afasta do Equador.
É verdade que a projeção produz uma imagem muito enganosa quando utilizada para comparar áreas. A Groenlândia parece quase tão grande quanto a África, embora a África seja cerca de 14 vezes maior. Europa, Canadá e Rússia também aparecem muito ampliados. Se alguém usar um mapa de Mercator para ensinar o tamanho relativo dos continentes sem explicar sua deformação, estará ensinando Geografia de maneira incompleta.
A crítica é legítima até esse ponto. O salto indevido ocorre quando uma limitação matemática passa a ser apresentada como prova de uma intenção política escondida no mapa.
A projeção de Mercator tornou-se muito usada porque resolvia um problema real. Durante séculos, a navegação marítima foi uma das principais razões para produzir mapas do mundo. Mais tarde, seu formato retangular também facilitou a impressão, a divisão em folhas, a construção de atlas e, já em nosso tempo, a exibição de mapas digitais divididos em pequenos blocos. O conhecido Web Mercator continua presente em serviços eletrônicos porque funciona convenientemente nesse tipo de sistema, apesar de não conservar corretamente as áreas.
Hoje, naturalmente, a maior parte das pessoas não utiliza um mapa-múndi para atravessar o oceano com uma bússola. Para o ensino geral da Geografia, uma projeção equivalente pode ser mais adequada. A Equal Earth, desenvolvida em 2018, conserva as proporções entre as áreas e produz uma imagem visualmente agradável do planeta. Ao olhar para ela, o estudante percebe com maior clareza a enorme extensão da África, da América do Sul e de outras regiões próximas ao Equador.
Nada disso exige uma explicação sobre opressores e oprimidos. Bastaria dizer que a finalidade mudou. Mercator favorecia a navegação; a Equal Earth favorece a comparação entre áreas. Escolhemos uma ou outra conforme o que desejamos observar.
A Equal Earth conserva as áreas, mas não resolveu o problema impossível de representar perfeitamente uma esfera num plano. Para preservar o tamanho relativo dos continentes, ela precisa deformar formas, ângulos e direções. Os territórios nas extremidades do mapa ficam inclinados ou alongados. Uma linha reta traçada sobre o papel não possui necessariamente o mesmo significado de uma linha reta na projeção de Mercator. Ela mostra melhor uma coisa e, para isso, mostra pior outras.
Essa não é uma falha exclusiva da Equal Earth. É o preço inevitável de qualquer projeção plana.
Talvez o modo mais fiel de representar a Terra continue sendo um globo. Nele, continentes, direções e distâncias mantêm relações muito mais próximas das reais. Atualmente, nem sequer seria necessário distribuir globos físicos para todas as situações. Um aplicativo permite girar o planeta, mudar a escala, observar os polos e medir distâncias sobre sua superfície. Para uma organização internacional preocupada em oferecer uma representação equilibrada do mundo, um globo digital seria uma escolha bastante natural.
Existe também o planisfério dividido em fusos, conhecido em inglês como globe gore map. É aquele mapa formado por tiras que se estreitam em direção aos polos. Quando recortadas e unidas, elas revestem uma esfera e formam um globo. Enquanto permanecem abertas sobre o papel, lembram uma casca retirada da fruta em várias partes. Essa representação reduz algumas deformações porque não obriga toda a superfície a permanecer unida num único retângulo. Em compensação, divide oceanos e dificulta uma visão contínua do planeta.
Há ainda projeções interrompidas que fazem algo semelhante, abrindo o mundo como uma casca de laranja. Algumas preservam melhor as massas continentais, mas cortam os oceanos em vários lugares. São úteis para estudar a distribuição de vegetação, população, clima ou produção, porém seriam muito ruins para observar rotas marítimas globais.
É sempre uma troca. Se quero manter as áreas, sacrifico parte das formas e dos ângulos. Se quero preservar os ângulos, altero as áreas. Se quero diminuir ambas as deformações, talvez precise interromper o mapa e separar regiões que, no planeta, são contínuas. Antes de escolher uma projeção, preciso saber para que o mapa será utilizado.
É por isso que considero estranha a própria ideia de um “mapa oficial do mundo”. Oficial para qual finalidade? Para ensinar a proporção entre os continentes? Para localizar países? Para navegar? Para estudar correntes marítimas? Para representar rotas aéreas? Para acompanhar o clima? Para mostrar densidade populacional? Cada atividade pode exigir uma representação diferente.
A resolução aprovada pela ONU não proíbe a projeção de Mercator. Ela incentiva o emprego de projeções equivalentes, com atenção especial à representação da África, em materiais educacionais, órgãos públicos, organizações internacionais e plataformas digitais. Mesmo assim, boa parte da divulgação tratou o assunto como se a humanidade finalmente estivesse abandonando um mapa colonialista e adotando outro moralmente correto.
Um mapa não é moralmente correto porque mostra a África maior, assim como não é moralmente perverso porque aumenta a Groenlândia. Ele é adequado ou inadequado para certa finalidade.
Naturalmente, mapas podem ser empregados politicamente. A escolha do centro, das fronteiras, dos nomes, das cores e dos territórios reconhecidos revela decisões humanas e pode favorecer determinada visão do mundo. Governos produzem mapas para sustentar reivindicações territoriais, e impérios já utilizaram a Cartografia para demonstrar poder. Isso é diferente de atribuir intenção colonialista a uma deformação que decorre da geometria e da função para a qual uma projeção foi construída.
A discussão poderia ser uma excelente oportunidade para ensinar Matemática e Geografia. Seria possível mostrar por que uma esfera não pode ser transformada num retângulo sem deformações, comparar projeções, calcular áreas e explicar por que determinados mapas funcionam melhor em determinadas situações. O estudante descobriria que toda representação seleciona algumas informações e deixa outras em segundo plano.
Em vez disso, preferiu-se novamente a história pronta: durante séculos, os países ricos teriam usado um mapa para parecer maiores, enquanto os povos oprimidos teriam sido reduzidos até mesmo no papel. Agora, uma instituição internacional corrigiria a injustiça adotando uma representação mais igualitária.
Essa narrativa é simples, fácil de repetir e politicamente útil. Só tem o defeito de explicar mal a história da projeção de Mercator e quase nada sobre Cartografia.
Não vejo problema em usar a Equal Earth num atlas escolar. Para a comparação visual das áreas continentais, ela é claramente superior à projeção de Mercator. Também não me incomodaria se escolas e órgãos internacionais passassem a empregá-la com frequência. Minha crítica está na embalagem ideológica colocada sobre uma decisão que poderia ser explicada com honestidade e simplicidade.
O mapa de Mercator cumpriu e ainda cumpre determinadas funções. A Equal Earth cumpre outras. O globo continua sendo uma representação mais completa do planeta, embora menos conveniente para impressão. Os mapas em fusos podem ser montados sobre uma esfera. As projeções interrompidas preservam melhor algumas características, mas fragmentam outras. Nenhuma delas possui todas as virtudes e nenhuma deveria receber autoridade universal.
A ONU poderia recomendar diferentes projeções para diferentes usos. Poderia incentivar globos físicos e digitais nas escolas. Poderia produzir um material explicando claramente aquilo que cada mapa conserva e aquilo que deforma. Isso ensinaria o estudante a compreender uma representação antes de aceitá-la.
Escolher uma projeção equivalente para certos materiais é perfeitamente defensável. Apresentar essa escolha como mais um capítulo da luta mundial entre opressores e oprimidos é que me parece desnecessário. Nem toda deformação é uma injustiça. Às vezes, é apenas Geometria.
Referências
JENNY, Bernhard; ŠAVRIČ, Bojan; PATTERSON, Tom. A compromise aspect-adaptive cylindrical projection for world maps. International Journal of Geographical Information Science, v. 29, n. 6, 2015.
PATTERSON, Tom; ŠAVRIČ, Bojan; JENNY, Bernhard. The Equal Earth map projection. International Journal of Geographical Information Science, v. 33, n. 3, p. 454–465, 2019.
SNYDER, John P. Map projections: a working manual. Washington: United States Government Printing Office, 1987. USGS Professional Paper 1395.
UNITED NATIONS. General Assembly endorses an equal-area world map. Nova York: Organização das Nações Unidas, 2026.
WOODWARD, David; HARLEY, J. B. (org.). The History of Cartography. Chicago: University of Chicago Press, 1987.