Quando uma prova classificatória favorece o ativista
Na postagem anterior, relatei minha experiência com a prova do PND e a impressão de estar diante de um exame muito mais interessado no alinhamento político do candidato do que em sua capacidade de ensinar. Há, porém, uma consequência que merece ser examinada separadamente. Não se tratava de uma pesquisa de opinião, de uma atividade de formação ou de uma prova sem efeitos na vida profissional. A PND foi criada para auxiliar estados e municípios na seleção de professores.
Portanto, estamos falando de uma prova que pode ser usada para classificar pessoas.
Essa diferença muda tudo.
Em uma pesquisa, perguntas direcionadas produzem resultados pouco confiáveis. Numa atividade de formação, restringem o debate. Em uma prova classificatória, porém, elas determinam quem ficará na frente e quem ficará atrás. Dependendo dos critérios adotados por cada rede de ensino, alguns candidatos poderão ter prioridade na escolha das vagas, enquanto outros ficarão com aquilo que restar ou nem sequer serão chamados.
Normalmente, uma classificação melhor oferece vantagens bastante concretas. O professor mais bem colocado pode ter mais possibilidades de trabalhar numa escola próxima de casa, escolher um horário contínuo ou completar sua carga de trabalho numa única unidade. Quem aparece no final da lista costuma encontrar escolas mais distantes, poucas aulas em cada lugar e horários fragmentados. Em alguns casos, precisará deslocar-se entre várias escolas para completar a jornada. Em outros, ficará fora do número de vagas.
Por isso, a qualidade das questões importa muito.
Se uma pergunta possui uma alternativa tecnicamente correta e outras claramente erradas, ela pode ajudar a distinguir quem conhece o conteúdo de quem não o conhece. Quando duas ou três respostas representam condutas possíveis, a questão passa a medir outra coisa. O candidato precisa descobrir qual das possibilidades a banca decidiu transformar em resposta oficial.
Foi essa a sensação que tive durante a prova. Em muitas situações pedagógicas, havia mais de uma atitude razoável. Um professor poderia escolher determinada abordagem conforme a idade dos alunos, o conteúdo, o comportamento da turma, os recursos disponíveis e os resultados obtidos anteriormente. Outro poderia agir de maneira diferente e alcançar um resultado igualmente bom.
A escola real não funciona como um exercício no qual uma única frase resolve qualquer situação. Uma estratégia pode funcionar numa turma e fracassar completamente em outra. O professor precisa observar, experimentar, corrigir o caminho e, muitas vezes, abandonar aquilo que o livro dizia ser o ideal.
Na prova, contudo, a resposta esperada quase sempre podia ser encontrada por meio do vocabulário ideológico adotado desde as primeiras questões. Não era necessário perguntar qual alternativa funcionaria melhor naquela sala de aula. Era mais eficiente procurar aquela que apresentava o aluno como vítima de alguma estrutura social, empregava os termos mais próximos da pedagogia da libertação ou repetia com maior fidelidade as pautas identitárias presentes no restante do exame.
Essa característica cria uma vantagem muito específica.
O candidato que participa ativamente desses movimentos reconhece imediatamente sua linguagem. Ele conhece as expressões mais recentes, as distinções internas e a maneira considerada adequada de formular cada argumento. Diante de várias respostas pedagogicamente possíveis, consegue perceber qual delas foi escrita para ser considerada correta.
Nem mesmo todos os simpatizantes possuem essa facilidade. Uma pessoa pode considerar legítimas muitas reivindicações feministas, antirracistas ou ambientais e ainda assim não acompanhar continuamente as discussões desses movimentos. Pode concordar com Paulo Freire em diversos pontos sem transformar sua teoria numa explicação geral para todos os problemas da educação. Pode preocupar-se sinceramente com as desigualdades sociais sem dominar o conjunto de expressões exigido para reconhecer a resposta esperada pela banca.
O ativista engajado encontra-se em outra posição. Ele não apenas concorda com algumas dessas ideias. Participa do ambiente em que elas são produzidas, discutidas e atualizadas. O vocabulário da prova já faz parte de seu cotidiano. O que para outro candidato parece uma escolha duvidosa entre duas alternativas aceitáveis, para ele funciona quase como uma senha.
Nesse momento, a prova deixa de avaliar somente conhecimentos pedagógicos e passa a medir fluência ideológica.
Isso seria menos grave se o exame perguntasse diretamente sobre determinada teoria. Se a questão começasse com “segundo Paulo Freire” ou “de acordo com determinada corrente pedagógica”, o candidato saberia qual conhecimento estava sendo avaliado. Poderia estudar o autor, compreender seus conceitos e responder corretamente, mesmo discordando deles. Conhecer uma teoria não obriga ninguém a aceitá-la.
Um professor conservador pode estudar Paulo Freire e explicar sua obra corretamente. Um professor progressista pode conhecer uma abordagem tradicional e descrevê-la com honestidade. Isso é conhecimento. Outra coisa é elaborar questões nas quais o candidato precisa pensar dentro de uma única corrente para não ser penalizado.
O problema aparece quando a teoria fica escondida numa situação apresentada como se tivesse uma solução evidente. O candidato não é questionado sobre aquilo que determinado autor defende. Precisa aceitar as premissas desse autor para encontrar a alternativa considerada correta. A concordância ideológica deixa de ser o objeto declarado da pergunta e passa a funcionar como um critério oculto de classificação.
Quando essa nota interfere na vida profissional, a banca não está distribuindo apenas pontos. Indiretamente, está distribuindo oportunidades.
O candidato mais familiarizado com o discurso favorecido poderá aparecer nas primeiras posições e obter melhores condições de trabalho. O professor que domina sua disciplina, possui experiência em sala e sabe explicar conteúdos com clareza pode ficar atrás porque interpretou a situação a partir de critérios práticos. Talvez tenha escolhido uma resposta perfeitamente defensável, mas diferente daquela que correspondia ao código político da banca.
Há nisso uma inversão difícil de ignorar. O ativista não é premiado por demonstrar que sabe ensinar melhor. É premiado porque reconhece melhor a linguagem do ativismo.
A adesão à PND não obriga todas as redes a utilizar sua nota da mesma maneira. Segundo o próprio Inep, o aproveitamento dos resultados depende da decisão de cada estado ou município e dos critérios estabelecidos no respectivo edital. Uma rede pode usar a nota como parte importante da classificação. Outra pode acrescentá-la à análise de títulos, ao tempo de serviço ou a uma prova própria. Também existem processos nos quais a participação no exame concede apenas uma pontuação adicional, sem que o desempenho obtido na PND substitua os demais critérios.
É o que ocorre no processo seletivo do qual estou participando. O comparecimento à PND acrescenta pontos, mas a nota obtida não determina a classificação final. Por essa razão, pude marcar as questões restantes quando a prova perdeu o sentido para mim, sem que os acertos e erros daquela parte interferissem diretamente no resultado do processo.
Não citarei qual é esse processo porque não pretendo discutir aqui a decisão de uma rede específica. O exemplo serve apenas para demonstrar que há diferentes maneiras de aproveitar a PND. Nesse caso, a opção por valorizar a participação, sem transformar a nota no principal critério, reduziu bastante o efeito das questões ideológicas sobre a classificação.
Nada garante, porém, que outras redes façam a mesma escolha agora ou no futuro.
A PND foi criada justamente para auxiliar estados e municípios na seleção de professores. Existe, portanto, a possibilidade de que uma rede atribua à nota um peso muito maior, fazendo dela a principal prova de conhecimentos ou o elemento central da classificação. Nesse modelo, o governo local pode deixar de elaborar uma avaliação objetiva própria e utilizar o resultado nacional para ordenar os candidatos, acrescentando apenas títulos, experiência ou outros critérios previstos no edital.
Não seria correto dizer que a PND elimina necessariamente todo o processo seletivo estadual ou municipal. Ainda será preciso publicar um edital, estabelecer requisitos, receber inscrições e definir as demais regras. Também podem existir análise de títulos, comprovação de experiência, cotas e outros elementos classificatórios. Mesmo assim, a prova nacional pode substituir a avaliação objetiva que antes seria elaborada pela própria rede.
A proposta parece eficiente. Estados e municípios economizam recursos, deixam de organizar exames semelhantes e recebem do governo federal uma avaliação pronta. O perigo está em nacionalizar também os defeitos da prova.
Se o exame realmente medisse com equilíbrio o conhecimento pedagógico e o domínio de cada disciplina, seu uso por diferentes redes poderia trazer vantagens. Mas uma prova fortemente marcada por determinada visão política deixa de afetar apenas um processo e passa a influenciar a contratação de professores em muitos lugares ao mesmo tempo.
Nesse cenário, a vantagem do ativista também ganha alcance nacional. O candidato familiarizado com a linguagem exigida poderá utilizar a mesma nota em diferentes seleções. Aquilo que inicialmente parecia apenas o viés de uma prova passa a influenciar quais professores terão prioridade para ingressar em diversas redes públicas.
O prejuízo não termina no resultado individual. Se esse padrão for repetido em grande escala, poderá influenciar o perfil dos profissionais que chegam às escolas em melhores condições. Pessoas mais próximas da ideologia adotada pela prova serão favorecidas, enquanto professores indiferentes a essas disputas ou críticos a elas encontrarão maiores dificuldades.
Não é necessário imaginar uma ordem secreta determinando que somente militantes sejam contratados. O mecanismo pode funcionar sem qualquer instrução desse tipo. Basta que o exame trate uma visão política como se fosse conhecimento pedagógico indiscutível. A classificação fará o restante.
Também é necessário pensar no destino das escolas menos procuradas. Se os candidatos mais bem classificados escolhem primeiro, é razoável supor que muitos procurarão escolas mais próximas, com melhor estrutura ou com horários mais convenientes. Aos candidatos situados nas posições inferiores podem restar escolas periféricas, comunidades afastadas e cargas horárias divididas entre várias unidades.
Surge então uma ironia. Uma prova que fala continuamente em desigualdade e proteção aos grupos vulneráveis pode contribuir para que professores selecionados por critérios menos técnicos tenham prioridade, enquanto profissionais experientes, mas pouco familiarizados com a linguagem ideológica, sejam encaminhados justamente às escolas que enfrentam as condições mais difíceis.
Não há qualquer desonra em trabalhar numa escola periférica. Muitas vezes, são essas escolas que mais precisam de bons professores. O problema está em chegar a essa distribuição por meio de uma classificação que talvez não meça a competência profissional com a precisão anunciada.
Imagine dois professores de Matemática. O primeiro conhece profundamente o conteúdo, identifica com facilidade as dificuldades dos alunos e consegue explicar um mesmo conceito de maneiras diferentes. O segundo domina perfeitamente o vocabulário usado pelos movimentos sociais, mas apresenta dificuldades para ensinar álgebra, geometria ou funções. Se a prova dedica grande parte de suas questões à interpretação ideológica de situações escolares, o segundo pode superar o primeiro na classificação.
Depois disso, o resultado será apresentado como medida de competência docente.
Existe ainda uma questão política inevitável. Uma prova nacional dessa natureza é aplicada durante um período no qual eleições podem alterar o governo e, com ele, parte das orientações do Ministério da Educação. Governos mudam, ministros e secretários são substituídos, programas recebem outros nomes e prioridades são revistas. Os professores selecionados, entretanto, permanecem nas escolas.
Não tenho elementos para afirmar que a prova tenha sido planejada como parte de uma estratégia eleitoral. Essa seria uma acusação que exigiria documentos, ordens e provas concretas. O conteúdo do exame, sozinho, não demonstra a existência de uma operação coordenada. Ainda assim, é legítimo observar o efeito político que um processo desse tipo pode produzir.
Ao favorecer candidatos mais envolvidos com determinada ideologia, uma prova classificatória ajuda a ampliar a presença dessa visão dentro das escolas. Esses professores participarão de reuniões, projetos, conselhos, atividades interdisciplinares e discussões curriculares. Também estarão diariamente em contato com os alunos, justamente no ambiente em que opiniões, valores e interpretações do mundo são formados.
A pergunta surge naturalmente: por que uma prova nacional para professores pareceu tão preocupada em identificar quem domina determinada linguagem política?
Se a intenção era avaliar conhecimentos docentes, deveria haver maior espaço para a disciplina específica, para os problemas reais de aprendizagem e para a capacidade de escolher métodos diferentes conforme o contexto. Se a intenção era verificar o conhecimento de teorias educacionais, bastaria nomeá-las e perguntar objetivamente sobre elas. A insistência numa única visão, escondida dentro de questões aparentemente práticas, produz uma seleção com efeitos muito diferentes.
Talvez seus elaboradores considerem essa visão tão evidentemente correta que nem percebam o caráter político das perguntas. Isso também seria um problema. Quando alguém passa a tratar suas próprias convicções como simples bom senso, qualquer discordância começa a parecer ignorância, atraso ou falta de preparo. A prova transforma uma posição discutível em critério técnico e depois utiliza esse critério para ordenar pessoas.
O resultado é uma classificação que aparenta neutralidade porque todos responderam às mesmas questões. A igualdade formal da aplicação, porém, não resolve o problema do conteúdo. Todos receberam a mesma prova, mas uma parte dos candidatos já falava fluentemente a língua escolhida pela banca.
Uma avaliação docente deveria distinguir os candidatos por aquilo que importa para o trabalho. Conhecimento da disciplina, clareza na comunicação, compreensão das dificuldades dos alunos, domínio de diferentes métodos, responsabilidade profissional e capacidade de perceber quando uma estratégia não está funcionando são critérios difíceis de medir. Ainda assim, estão ligados à função do professor.
Reconhecer expressões ideológicas também é uma habilidade. Apenas não é a habilidade que deveria decidir quem terá as melhores oportunidades de trabalho como professor de Matemática, Física, Química, Língua Portuguesa ou qualquer outra disciplina.
Quando a classificação depende dessa familiaridade, o exame pode realizar uma seleção política sem jamais admitir que está fazendo isso. O ativista é premiado. O simpatizante não engajado pode não compreender a sutileza exigida. O professor crítico precisa escolher entre responder segundo suas convicções ou representar o papel esperado pela banca.
Depois, a lista é publicada como se apenas a competência tivesse separado os primeiros dos últimos.
Uma prova classificatória nunca é somente um conjunto de perguntas. Ela abre algumas portas antes de outras. Define quem escolhe e quem aceita o que sobrou. Pode aproximar um professor de sua casa ou obrigá-lo a atravessar a cidade. Pode oferecer uma jornada organizada ou horários picados em várias escolas. Em alguns casos, decide quem trabalhará e quem continuará esperando.
Justamente por produzir consequências tão concretas, uma prova dessa natureza deveria ter muito cuidado para não confundir conhecimento com militância. Quando não faz essa distinção, corre o risco de premiar o ativista e chamar o resultado de mérito.
Referências
ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 2016.
BOBBIO, Norberto. Os intelectuais e o poder: dúvidas e opções dos homens de cultura na sociedade contemporânea. São Paulo: Editora Unesp, 1997.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021.
INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO TEIXEIRA. Prova Nacional Docente. Brasília: Inep, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/areas-de-atuacao/avaliacao-e-exames-educacionais/prova-nacional-docente.
LUCKESI, Cipriano Carlos. Avaliação da aprendizagem escolar: estudos e proposições. São Paulo: Cortez, 2011.
WEBER, Max. Ciência e política: duas vocações. São Paulo: Cultrix, 2011.